quinta-feira, 22 de março de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012


UMA HISTÓRIA COM MIL MACACOS
De Ruth Rocha


Lá na minha terra morava um grande cientista: o Doutor Eduardo Quaresma. Ele estava estudando a personalidade de diversos animais. Para isso, ele precisava observar os animais.

Então um dia o Doutor precisou arranjar alguns macacos, para observar o comportamento deles. Na minha cidade não tem Jardim Zoológico. E mesmo que tivesse, eu acho que os zoológicos não andam emprestando bichos sem mais nem menos.

Por isso, o Dr. Quaresma mandou um telegrama para o amigo dele, lá na Amazônia. Um tal de Jeremias não sei do quê. O telegrama era assim:

“PRECISO DE MACACOS PARA MEUS ESTUDOS. MANDE 1 OU 2 MACACOS. ABRAÇOS.
QUERESMA”

O Zeca é o nosso telegrafista. Ele é meio desligado, distraído... Mas mandou o telegrama e o Doutor Quaresma ficou esperando o resultado. Um dia chegou pelo trem das duas uma porção de caixas endereçadas ao Dou

tor. O Doutor ficou espantado, porque nas caixas vinham uns 10 ou 12 macacos.
- Ora essa, que exagero do Jeremias! - Pensou o Doutor.

Mas também ficou satisfeito porque podia começar seus estudos. Acomodou os macacos como pôde no quintal, onde havia muitas árvores, para espanto das galinhas do galinheiro.

No dia seguinte, pelo trem das duas, chegou mais um carregamento para o Doutor com mais 10 ou 12 macacos. Quando a encomenda chegou, o Doutor apavorou:

- SERÁ QUE JEREMIAS FICOU MALUCO?
Mas guardou os macacos e prosseguiu nos seus estudos...

Só que no dia seguinte, no dia seguinte ao dia seguinte, e nos dias que se seguiram ao dia seguinte... Todos os dias, pontualmente, pelo trem das duas, chegava um novo carregamento de macacos. O Doutor começou a ficar desesperado!

- QUE SERÁ QU
E DEU NO JEREMIAS?

E resolveu falar com o Zeca e verificar o telegrama que ele tinha mandado. E caiu das nuvens quando o Zeca mostrou o texto do telegrama a ele. É isso, seu Doutor, mandei o telegrama direitinho.

TELEGRAMA:
DESTINATÁRIO:
JEREMIAS DA SILVA PT
AMAZONIA PT
PRECISO MACACOS PARA MEUS ESTUDOS PT MANDE 1 0 2 MACACOS PT ABRAÇOS PT
REMETENTE: EDUARDO QUARESMA PT

Em vez de 1 ou 2, o Zeca escreveu: 1 0 2 macacos – cento e dois macacos!
O caso era grave! No quintal do doutor Quaresma já havia uma verdadeira macacada! Os meninos passaram pela casa do Doutor e apontavam: É ali que mora o doutor dos macacos!

O preço da banana, na cidade, ficou caríssimo, porque o Doutor comprava tudo que era banana para alimentar a macacada.

O Doutor resolveu passar outro telegrama urgente para Jeremias. Foi ao Correio falar com Zeca.
- Seu Zeca, preste bem atenção! Vamos mandar um telegrama ao meu amigo dos macacos. Escreva aí: “PARE DE MANDAR MACACOS”. Mas o Zeca era teimoso e disse:
- Não é melhor explicar bem? Que a cidade é pequena, a macacada é grande...
- Não, não! – o Doutor insistiu.
- Escreva como eu disse: “PARE DE MANDAR MACACOS”.
- Mas, Seu Quaresma, não é melhor explicar direitinho, que é para entender.
- NÃO! PARE DE MANDAR MACACOS! Fica muito bem explicado.
O Zeca tomou nota e enviou o telegrama:
“NÃO PARE DE MANDAR MACACOS”.

Ai é que os macacos não paravam de chegar nunca mais... Todos os dias, pelo trem das duas, chegava um novo carregamento. O Doutor já tinha tentado soltar alguns no mato, mas eles voltavam para a cidade e faziam as maiores loucuras. Já tinha dado macaco a tudo que era amigo, mas as mulheres dos amigos nem falavam mais com ele. E o Doutor voltou mais uma vez ao correio para falar com o Zeca e pediu para ler o texto do telegrama que era assim:

TELEGRAMA:
DESTINATÁRIO:
JEREMIAS DA S
ILVA PT
AMAZONIA PT
“NÃO PARE DE MANDAR MACACOS”.
PT ABRAÇOS PT
REMETENTE: EDUARDO QUARESMA PT

E eu nem vou contar a vocês o que o Doutor disse pro Zeca...
No dia seguinte, quando o trem das duas chegou com mais um carregamento de macacos...
Enquanto os empregados estavam na estação e tiravam os macacos por um lado do trem, o Doutor Quaresma embarcava pelo outro, nunca mais ninguém da minha cidade ouviu falar do Doutor.

E os macacos? Bem, quando o Doutor fugiu da cidade, deixou uma carta, com cópia para todo
mundo. A carta dizia assim:

“EU VOU EMBORA DESTA CIDADE, MAS DEIXO TODOS OS MEUS BENS PARA O MEU QUERIDO AMIGO ZECA TELEGRAFISTA. EDUARDO QUARESMA”
E assim o Zeca recebeu de presente os bens do Doutor: a macacada toda. E até hoje o Zeca é babá de macaco.

terça-feira, 6 de março de 2012

Menina Bonita do Laço de Fita

Era uma vez uma menina linda, linda.
Os olhos pareciam duas azeitonas pretas brilhantes, os cabelos enroladinhos e bem negros.
A pele era escura e lustrosa, que nem o pelo da pantera negra na chuva.
Ainda por cima, a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo dela e enfeitar com laços de fita coloridas. Ela ficava parecendo uma princesa das terras da áfrica, ou uma fada do Reino do Luar.
E, havia um coelho bem branquinho, com olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando. O coelho achava a menina a pessoa mais linda que ele tinha visto na vida.
E pensava:
- Ah, quando eu casar quero ter uma filha pretinha e linda que nem ela...
Por isso, um dia ele foi até a casa da menina e perguntou:
- Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
­- Ah deve ser porque eu caí na tinta preta quando era pequenina...
O coelho saiu dali, procurou uma lata de tinta preta e tomou banho nela. Ficou bem negro, todo contente. Mas aí veio uma chuva e lavou todo aquele pretume, ele ficou branco outra vez.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
- Menina bonita do laço de fita, qual é o seu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
- Ah, deve ser porque eu tomei muito café quando era pequenina.
O coelho saiu dali e tomou tanto café que perdeu o sono e passou a noite toda fazendo xixi. Mas não ficou nada preto.
- Menina bonita do laço de fita, qual o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
­- Ah, deve ser porque eu comi muita jabuticaba quando era pequenina.
O coelho saiu dali e se empanturrou de jabuticaba até ficar pesadão, sem conseguir sair do lugar. O máximo que conseguiu foi fazer muito cocozinho preto e redondo feito jabuticaba. Mas não ficou nada preto.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
- Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha?
A menina não sabia e... Já ia inventando outra coisa, uma história de feijoada, quando a mãe dela que era uma mulata linda e risonha, resolveu se meter e disse:
- Artes de uma avó preta que ela tinha...
Aí o coelho, que era bobinho, mas nem tanto, viu que a mãe da menina devia estar mesmo dizendo a verdade, porque a gente se parece sempre é com os pais, os tios, os avós e até com os parentes tortos.
E se ele queria ter uma filha pretinha e linda que nem a menina, tinha era que procurar uma coelha preta para casar.
Não precisou procurar muito. Logo encontrou uma coelhinha escura como a noite, que achava aquele coelho branco uma graça.
Foram namorando, casando e tiveram uma ninhada de filhotes, que coelho quando desanda a ter filhote não para mais! Tinha coelhos de todas as cores: branco, branco malhado de preto, preto malhado de branco e até uma coelha bem pretinha. Já se sabe, afilhada da tal menina bonita que morava na casa ao lado.
E quando a coelhinha saía de laço colorido no pescoço sempre encontrava alguém que perguntava:
- Coelha bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?
E ela respondia:
- Conselhos da mãe da minha madrinha...

[de Ana Maria Machado, livro.
ilustração: Claudius]